Os brasileiros têm o governo que merecem?, por Paulo Fernandes Silveira

Com a redemocratização do Brasil, o tema das maneiras e dos costumes ganhou destaque nas campanhas à presidência

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Os brasileiros têm o governo que merecem? 

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por Paulo Fernandes Silveira

Em 1997, o concurso de dissertações de filosofia para secundaristas de Quebec (Concours Philosopher) apresentou como tema geral a questão: “É justo afirmar que temos o governo que merecemos?”. (aqui) No ano seguinte, esse tema reapareceu no exame vestibular francês (Baccalauréat – Bac). Numa de suas propostas de dissertação, o Bac de 1998 trazia a seguinte questão: “É verdade que os homens têm apenas e tão somente o governo que merecem?”. (aqui)

No segundo volume do seu extenso manual de filosofia dedicado aos secundaristas e aos vestibulandos, publicado no início do século XX (Traité de Philosophie), (aqui) o educador e filósofo Gaston Sortais discute essa questão originalmente formulada pelo diplomata monarquista Joseph de Maistre. (aqui) Na interpretação de Sortais, esse tema articula-se às análises que Montesquieu faz sobre as inúmeras peculiaridades dos sistemas de governo.

No Espírito das Leis, Montesquieu não chega a antecipar a questão de Maistre, no entanto, no livro décimo nono de sua obra, o filósofo francês sustenta a tese de que os legisladores devem seguir o espírito de cada nação. (aqui) Nas palavras de Montesquieu, além do clima, das religiões, das leis, das máximas dos governos e dos exemplos das coisas passadas, os costumes e as maneiras governam os homens e contribuem para formar o espírito da nação.

Seria temeroso, acrescenta Montesquieu, impor leis que contrariem as maneiras e os costumes arraigados no povo. Numa passagem do seu texto, o filósofo refere-se       à fala de um fidalgo: “que nos deixem como somos”. Segundo a filósofa Céline Spector, não se trata de lastimar os governos infames eleitos por encarnarem o espírito da nação, como parece fazer Maistre, mas de reverenciar a democracia como forma de governo na qual seus representantes precisam respeitar o gênio do povo. (aqui)

Com a redemocratização do Brasil, o tema das maneiras e dos costumes ganhou destaque nas campanhas à presidência. Em 1989, na primeira eleição para presidente desde 1960, destacaram-se os candidatos Fernando Collor, empresário de família rica e poderosa que dividia seu tempo entre a política e os esportes radicais, e Lula, operário e sindicalista que liderou, entre 1978 e 1980, a histórica série de greves dos metalúrgicos na região do ABC paulista. Na campanha fracassada de 1982 para o governo do Estado de São Paulo, Lula utilizou o slogan: “um brasileiro igualzinho a você”.  (aqui) Essa estratégia foi abandonada na campanha presidencial de 1989, que, todavia, manteve o slogan: “trabalhador vota em trabalhador”. Numa campanha agressiva, Collor destacou num debate de televisão que Lula não era um trabalhador igualzinho a qualquer trabalhador, uma vez que possuía um sofisticado aparelho de som três em um. (aqui)

Na campanha eleitoral subsequente, uma reportagem da FOLHA com o título “Famosas e ricas vão à luta com Ruth em SP” descrevia um almoço com 80 mulheres que defendiam a candidatura de FHC. (aqui) Nessa ocasião, uma das militantes, a diretora de teatro Ruth Escobar, proferiu seu slogan: “Nessa eleição temos duas opções: votar em Jean-Paul Sartre ou escolher um encanador”. Ainda que tenha sido criticado por algumas convidadas da festa, o slogan foi aceito e prontamente incorporado pela atriz Regina Duarte. Um mês depois, mais próximo do segundo turno das eleições, a FOLHA retomou o tema propondo uma enquete sobre os ídolos dos candidatos. (aqui) As listas refletiam suas preferências e opiniões. A lista de FHC destacava autores célebres: Tocqueville, Weber e Florestan Fernandes. A de Lula indicava sua admiração por figuras populares: Gandhi, Viola (jogador do Corinthians), Chico Buarque e Raul Seixas.

Em textos publicados recentemente, os escritores e jornalistas Valter Hugo Mãe e Antônio Prata tratam das maneiras e costumes de muitas brasileiras e brasileiros que se aproximam das posições defendidas pelo atual governo federal. O texto de Mãe é uma carta aberta ao também escritor Marcelino Freire. (aqui) É um texto de um português que se mostra apaixonado pelo Brasil, e que não percebeu, nas estadias em diversas regiões do país, tanto ódio nas pessoas, a ponto delas terem escolhido um governo que ameaça a vida de negros, mulheres, crianças, moradores das periferias e gays. O texto de Prata retoma esses temas a partir de dados estatísticos sobre os efeitos desse ódio, além de ressaltar o ódio instigado pelo governo contra os movimentos sociais. (aqui) O escritor termina seu texto apontando para um dos mais arraigados costumes do falso liberal: acolher ideias modernas que eternizam nosso atraso.

Entre as eleições de Lula e a eleição do atual governo, o Brasil passou pela administração de uma mulher forte, inteligente e libertária. Talvez, nada fosse mais contrário às maneiras e costumes das brasileiras e brasileiros. Talvez, o retorno ao atraso seja uma resposta conservadora à ousadia de termos elegido Dilma Roussef por dois mandatos consecutivos. Talvez, os brasileiros tenham o governo que merecem. Talvez, num futuro próximo, possamos reconstruir as condições para merecermos um governo que não se contraponha à nossa própria emancipação.

Paulo Fernandes Silveira (FEUSP e IEA-USP)

Fonte jornalggn
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