Israel atingiu áreas em que direcionou civis em Gaza, revela análise da CNN

CNN verificou três ataques israelenses em áreas para onde cidadãos foram instruídos a fugir

Israel atacou ao menos três locais em Gaza nos quais ordenou a evacuação de civis desde o fim da trégua entre Israel e o Hamas no início deste mês, descobriu uma análise da CNN.

No dia 1° de dezembro, as Forças de Defesa de Israel (FDI) divulgaram um mapa de Gaza dividido em 623 blocos numerados, indicando áreas que os militares iriam atacar e áreas para onde os civis deveriam fugir. Ele foi disponibilizado online por meio de um QR Code impresso em folhetos distribuídos no território.

O mapa, um vestígio do plano de curta duração da década de 1970 para reconstruir Gaza nos primeiros anos da ocupação da faixa costeira por Israel, foi descrito pelas FDI como “uma forma segura de preservar a sua segurança, as suas vidas e as vidas de suas famílias”.

Os residentes de Gaza são instruídos a “por favor, prestem atenção e verifiquem este mapa”, enquanto seguem “instruções das FDI através de vários meios de comunicação”.

No entanto, uma análise da CNN mostra que as instruções dos militares israelenses têm sido, por vezes, imprecisas e confusas. As atualizações regulares das FDI destacam blocos numerados em laranja, pedindo aos cidadãos que saiam desses locais e se mudem para outras áreas marcadas no mapa.

Mas algumas das mensagens têm sido contraditórias. Além disso, foi levantada a preocupação sobre a capacidade dos palestinos de acessar as informações, devido a cortes de energia e de telecomunicações.

Militares israelenses lançaram panfletos na cidade de Khan Younis, no sul de Gaza, no dia 1° de dezembro, chamando-a de “zona de combate” / Obtido pela CNN

Utilizando vídeos e imagens compartilhadas online, imagens de satélite e notícias locais, a CNN verificou três ataques israelenses em áreas para onde os cidadãos foram instruídos a fugir.

“Desde o início dos combates, as FDI têm implorado à população civil que evacue temporariamente as áreas de intensos combates para áreas mais seguras, a fim de minimizar o risco representado pela permanência em áreas de intensas hostilidades”, afirmaram as FDI em comunicado em resposta à reportagem da CNN.

Os militares também alegaram que atacaram as áreas identificadas no relatório após “indicações da inteligência de que esses locais eram esconderijos para comandantes da Brigada Rafah da organização terrorista Hamas”.

“As FDI continuam operando contra a infraestrutura [do Hamas] e os terroristas do Hamas, onde quer que estejam localizados na Faixa de Gaza”, continua a declaração.

Ataques em áreas para onde civis são direcionados

Em 2 de dezembro, o porta-voz das Forças de Defesa de Israel para a imprensa árabe, Avichay Adraee, postou ordens de evacuação nas redes sociais para cidadãos em partes da Faixa de Gaza, que as FDI apelidaram de “zona segura” no primeiro mês e meio da guerra, antes da trégua.

Várias imagens do mesmo local foram compartilhadas, cada uma com locais diferentes destacados. No mapa, as áreas ao norte e leste da cidade de Khan Younis são destacadas em laranja, e as setas instruem os residentes a deixarem dessas áreas para Al-Mawasi, uma faixa costeira designada como zona segura pelas por Israel, ou para Rafah, a cidade mais ao sul de Gaza.

As organizações humanitárias levantaram preocupações sobre a “zona humanitária” de Al-Mawasi. O diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) chamou a área de “uma receita para o desastre” devido ao espaço limitado e à falta de infraestrutura ou serviços.

Entretanto, a análise mostra que os ataques continuaram atingindo Rafah.

Nos três dias após a postagem de Adraee, três ataques israelenses tiveram como alvo locais em Rafah, descobriu a CNN, apesar do conselho das FDI para que os habitantes de Gaza fossem para Rafah.

Na tarde de 3 de dezembro, ocorreu um ataque no bairro de El-Geneina, em Rafah. Imagens, filmadas momentos após o ataque, mostram uma grande nuvem de fumaça subindo de um local próximo à Rua Saddam.

Fotografias e vídeos compartilhados nas redes sociais, e localizados geograficamente, mostram uma grande cratera e vários edifícios que foram danificados ou destruídos.

A imprensa local informou que ao menos 17 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas no ataque, que atingiu a casa da família al-Bawab.

Mais tarde naquela noite, outro ataque aéreo atingiu a casa da família Al-Jazzar, no bairro Al-Tanour, em Rafah. Imagens capturadas após o ocorrido mostram indivíduos procurando desesperadamente por sobreviventes nos destroços.

Um vídeo mostra um homem com as pernas presas nos escombros sendo resgatado por equipes de resgate.

CNN localizou geograficamente as imagens como sendo em uma casa no bairro de Al-Tanour, em Rafah, e confirmou o ataque usando imagens de satélite.

Jornalistas da região disseram à CNN que 18 pessoas morreram no caso, entre elas a jornalista Shaima Al-Jazzar e sua família. A CNN não conseguiu verificar de forma independente o número ou identidade das vítimas.

CNN também conseguiu verificar relatos da noite seguinte, 4 de dezembro, de que um ataque israelense teve como alvo uma torre de água pública a menos de 400 metros da casa da família Al-Jazzar. Através da análise de imagens de satélite, é possível confirmar que a caixa d’água foi destruída entre os dias 3 e 9 de dezembro.

Houve também relatos de pelo menos três outros ataques aéreos em locais em Rafah, nos dias 2, 3 e 5 de dezembro, mas a CNN não podê verificar de forma independente essas informações.

Mensagens confusas sobre zonas seguras

As Forças de Defesa de Israel também emitiram mensagens contraditórias no norte da Faixa de Gaza que poderiam ter levado cidadãos a acreditar erroneamente que estavam em áreas seguras, mostra a análise da CNN.

No dia 2 de dezembro, o porta-voz Avichay Adraee publicou ordens de evacuação nas redes sociais para cidadãos do norte da Faixa de Gaza, destacando vários quarteirões a norte da Cidade de Gaza, incluindo grandes partes do Campo de Refugiados de Jabalia.

O gráfico instruía as pessoas nestas áreas a “evacuarem as suas casas imediatamente através dos eixos Haifa e Khalil al-Wazir e irem para os centros de abrigo e escolas conhecidos nos bairros de Al-Daraj e Tuffah e a oeste da Cidade de Gaza”.

Um dos dois mapas compartilhados pelo porta-voz das Forças de Defesa de Israel, Avichay Adraee, em 2 de dezembro pedindo a evacuação dos cidadãos no norte da Faixa de Gaza / Forças de Defesa de Israel/X

Adraee anexou duas imagens inconsistentes às instruções. Ambas mostravam a mesma área, mas a segunda imagem apresentava um número maior de blocos considerados inseguros.

As mensagens confusas fez com que “blocos” fossem apresentados simultaneamente como “seguros” e “inseguros”. Por exemplo, o bloco 720 não está destacado na primeira imagem, mas aparece na área laranja na segunda imagem.

O bloco 717, que está parcialmente destacado na primeira imagem, aparece diretamente na zona laranja na segunda imagem.

Segundo mapa compartilhado por porta-voz das Forças de Defesa de Israel sobre áreas seguras em Gaza, inconsistente com o primeiro
Segundo mapa compartilhado por porta-voz das Forças de Defesa de Israel sobre áreas seguras em Gaza, inconsistente com o primeiro / Forças de Defesa de Israel/X

Adraee publicou um parecer atualizado em 3 de dezembro, no qual apenas a imagem que mostra a maior área sombreada foi incluída.

CNN verificou dois ataques israelenses que ocorreram dentro de quarteirões que não foram destacados na primeira versão da imagem, e que, portanto, de acordo com a orientação dos militares, deveriam ter sido seguros, depois que Adraee compartilhou as ordens de evacuação contraditórias.

Na noite de 3 de dezembro, foi compartilhado nas redes sociais um vídeo que parecia mostrar um posto de gasolina em chamas. Foi divulgado juntamente com relatos de que um posto de gasolina no bairro de Al-Tuffah, na cidade de Gaza, havia sido atingido por um ataque aéreo israelense.

O vídeo foi feito à noite, dificultando a detecção de pontos de referência. Relatos também indicavam que o posto de gasolina estava localizado próximo aos escritórios da Defesa Civil Palestina. Com essas informações, a CNN conseguiu localizar um escritório da Defesa Civil e um posto de gasolina lado a lado no bairro de Al-Tuffah.

Imagens de satélite da área, fornecidas pela Planet Labs no dia 4 de dezembro, revelam destruição e sinais claros de incêndio no posto de gasolina, localizado no bloco 720, área que não estava destacada em um dos mapas divulgados.

A Defesa Civil Palestina divulgou posteriormente um comunicado dizendo que três membros de sua equipe foram mortos e vários outros ficaram feridos no bombardeio.

No mesmo dia, relatos locais pontuaram que a mesquita Al-Salam, no bairro de Al-Tuffah, tinha sido alvo de ataques israelense. As imagens de satélite da região não revelam danos claros à mesquita, mas há sinais de bombardeio na área próxima.

Embora não tenha sido possível confirmar a data exata deste ataque, que atingiu o bloco 717, a análise de imagens de satélite revela que ele ocorreu entre 2 e 9 de dezembro, nos dias seguintes à postagem de Adraee corrigindo o mapa inicial.

As FDI afirmam que os mapas refletem o compromisso de garantir “todas as precauções possíveis para evitar causar perdas de vidas civis ou ferimentos, adotando todos os meios disponíveis”.

Entretanto, grupos de direitos humanos e organizações internacionais lançaram dúvidas sobre essas afirmações.

O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) indicou preocupação sobre a acessibilidade do mapa para os residentes de Gaza, devido a cortes de energia e cortes de telecomunicações.

Dados do monitor global da Internet, NetBlocks, revelam que, nos momentos em que as FDI forneciam ordens de evacuação para blocos numerados em torno de Gaza, a conectividade de rede na província de Rafah era inferior a um quinto dos níveis máximos.

Na província de Khan Younis, houve momentos em que a conectividade foi registrada como zero.

“Não está claro como os residentes em Gaza teriam acesso ao mapa sem eletricidade e em meio a cortes recorrentes de telecomunicações”, ressaltu um comunicado do OCHA.

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Fonte cnnbrasil
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