Equador enfrenta crises políticas e de segurança

Alta da inflação também é problema do país

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Os equatorianos, hoje, ainda tentam entender as mudanças internas de um governo recente, que completa um ano, nesta terça-feira (24). O presidente Guillermo Lasso, há menos de um mês, pediu a demissão de todo o gabinete ministerial.

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O motivo: uma crise de segurança pública, que forçou o decreto do estado de exceção por dois meses, no fim do ano passado.

Durante os 60 dias, militares se juntaram nas operações de confisco de drogas e armas em nove das 24 províncias do país. O policiamento foi reforçado nas ruas.

“É um governo que não tem maioria no congresso, sofre com grupos opositores e tem enfrentado uma grande crise na área de segurança pública”, afirma Denilde Holzhacker, cientista política.

Os problemas do equador são históricos. De 1997 a 2007, os equatorianos tiveram sete presidentes – nenhum completou os quatro anos de mandato.

Depois de uma década de instabilidade política, quem surgiu no cenário foi o economista de esquerda Rafael Correia, que ficou dez anos no poder.

Logo no começo do governo, com a alta a popularidade, ele muda a constituição para conseguir reeleições ilimitadas. Deixou de lado o sistema público de saúde, mantendo o baixo investimento.

Em 2017, Correia deixa o governo e decide não concorrer, apoiando o seu vice, o também esquerdista Lenín Moreno, que vence a disputa eleitoral. Condenado em 2020 por casos de corrupção envolvendo a empreiteira Odebrecht, Correia não foi preso por estar exilado na Bélgica.

Com Moreno, o Equador enfrentou a pior crise econômica da história por causa da recessão, causada pela dependência ao petróleo.

O país tem a segunda maior reserva de barris da América do Sul, só perdendo para a Venezuela. Com a saída do Equador da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), o governo deixou de obedecer a limites de extração para aumentar a produção interna e reduzir o déficit público.

Mas, com a pandemia, o preço do barril no mercado internacional despencou e assim um projeto que tinha tudo para dar certo, fracassou. Hoje, a dívida pública do Equador equivale a mais da metade do Produto Interno Bruto (PIB).

A situação econômica que enfrenta a nação deriva não só da crise da pandemia, mas existem problemas estruturais que dificultam a recuperação a médio e curto prazo. A dependência na exportação de commodities, por exemplo.

Para este economista equatoriano ouvido pela CNN, falta um alinhamento do governo para alavancar a economia do país. “A política do governo não tem ajudado no rápido desenvolvimento da economia”, explica Carlos Paredes.

Hoje, a economia experimenta uma alta sensível nos preços, perto dos três por cento (2,89%) nos últimos 12 meses. É significativo porque 2020 terminou com uma inflação negativa de quase 1%.

No mesmo período, no ano passado, essa inflação foi negativa, de -1%. Porém, situação muito diferente de duas décadas atrás, quando a cesta básica dobrava de valor a cada 12 meses.

Por trás da queda vertiginosa do índice de preços, está uma manobra política cheia de riscos: a dolarização — que é encaixar uma moeda forte na realidade de um país que está longe de ser rico. Há vinte e dois anos, o dólar é a moeda oficial do país.

“Quando a inflação sobe nos estados unidos ou até mesmo, por outro lado, a taxa de juros, o equador também vai sentir essas mudanças, essas alterações nas políticas macroeconômicas”, indica Regina Bressan, professora de Relações Internacionais da Unifesp.

Para o economista Roberto Dumas, “Significa que o Banco Central do Equador não tinha mais credibilidade nenhuma e isso culminou com que a inflação conseguisse atingir níveis satisfatórios. Mas você tem dois pontos contra. Primeiro que você está absolutamente, totalmente dependente da política monetária dos Estados Unidos e que não tem a política cambial, e também não tem a política monetária para futuramente endereçar choques macroeconômicos que possam impactar a sua economia.”

Com tamanha dívida, o país continua ainda muito atrelado às importações, indo na contramão da promessa de campanha do presidente Lasso de atrair investimentos estrangeiros e expandir o setor agrícola. O Equador precisa comprar de fora de papel até automóveis. E essa dependência reflete principalmente no bolso da classe média do país.

CNN foi até a capital Quito conhecer o casal Jaime e Ivete, que mesmo cortando muitos gastos, ainda não consegue fechar as contas no fim do mês.

“A alta dos combustíveis nos afetou. Antes enchíamos o tanque com 15 dólares. Hoje gastamos uns 20 dólares por semana”, diz Jaime Luna, engenheiro de sistemas. “O aumento da energia elétrica também complica porque atualmente estamos pagando uns 50% a mais do que pagávamos meses atrás”, finaliza.

Agora, para tentar equilibrar a balança comercial do país, o presidente Guillermo Lasso aposta na queda das reservas internacionais de petróleo, por causa da guerra na Ucrânia. Com o conflito, o preço do barril sobe no mercado internacional e isso pode vir a beneficiar o governo.

“Uma vez que o governo consiga nivelar as contas públicas, as finanças públicas, o orçamento será maior para o desenvolvimento social”, continua Carlos Paredes.

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