Países do Brics se destacam na corrida pelas vacinas contra covid

Bloco se torna fundamental ao desenvolver 10 imunizantes e por contar com o maior laboratório do mundo, mas Brasil perde espaço

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A pandemia do novo coronavírus e a corrida internacional por vacinas contra a covid-19 ajudaram a consolidar a importância de pelo menos três dos cinco países-membro do Brics  — a aliança política criada em 2009 e formada hoje por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, considerados os principais países emergentes do mundo.

Até o momento, as nações do bloco contribuíram com o desenvolvimento de dez das 20 principais vacinas contra a covid-19 no mundo (seis desenvolvidas na China, duas na Índia e duas na Rússia). A Índia é sede do Instituto Serum, a maior fabricante de vacinas do mundo, e a China tem uma das indústrias de biotecnologia mais avançadas do planeta.

O Brasil, no entanto, corre o risco de perder espaço para os outros países. Isso porque não aderiu, anos atrás, às políticas do bloco que poderiam ter ajudado a instalar plantas para a fabricação de insumos farmacêuticos no país. Ainda assim, conta com duas instituições mundialmente reconhecidas, o Instituto Butantan, em São Paulo, e a Fundação Oswaldo Cruz, no Rio.

“Esse foi um erro estratégico lá atrás, o país poderia produzir insumos há bastante tempo e não usou esse mecanismo. Isso tornou o mundo muito dependente da China e da Índia nesse setor. E agora a gente pode ver a importância de se ter essa estrutura no bloco”, afirma Márcio Coimbra, professor de Relações Institucionais e Governamentais do Mackenzie-DF.

A importância do Brics

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Segundo Coimbra, a oferta de vacinas pelos países do Brics pode ajudar a equilibrar o mercado mundial, já que os EUA, a União Europeia, o Japão e outros países considerados desenvolvidos, que correspondem a 13% da população mundial, compraram 50% das doses de imunizantes disponíveis no mundo, de empresas que ficam nesses mercados.

A união dos países dentro do bloco pode ser ainda mais complicada do que simplesmente equacionar o fornecimento das vacinas, segundo Evandro Menezes de Carvalho, professor de Direito Internacional e coordenador do Núcleo Brasil-China da FGV-RJ. Na visão dele, divergências regionais e políticas dificultam que todos fechem uma pauta em comum.

“Numa situação de pandemia, nenhum país deveria se dar ao luxo de politizar a questão da vacina porque se trata de salvar vidas, mas não dá para ignorar que os países viram que seria inevitável um uso político e fizeram. A Rússia, por exemplo, que se antecipou na autorização para lançar a Sputnik-V. O Brasil não desenvolveu a sua vacina e fez uma politização às avessas, de rejeição e não participou do desenvolvimento”, explica Carvalho.

Uma questão que não foi solucionada a tempo, segundo o professor do Mackenzie-DF, foi a criação de um centro integrado de vacinas, que teria a participação de todos os países do bloco, mas que nunca saiu do papel. A decisão foi tomada após a cúpula do Brics em Joanesburgo, na África do Sul, em 2018, e a Índia deveria ser a sede desse instituto.

“Esse centro seria muito bem vindo hoje. E certamente ajudaria a concentrar os esforços de todos os países, diminuiria a competição. Acredito que no futuro ele deve ser feito. Na cúpula de 2020, Putin pediu aos outros países para acelerar essa criação. É uma pauta positiva e que pode unir mais o bloco”, explica.

Diplomacia na pandemia

As relações diplomáticas estremecidas entre Brasil e China, assim como entre China e Índia, também dificultam esse processo. “A gente ainda não sabe qual vai ser a capacidade do bloco de deixar essas questões políticas de lado, evitar que isso tudo interfira em algo mais amplo, que é a saúde global”, afirma.

Isso pode ser visto, por exemplo, no momento em que a China fornece suas vacinas para países alinhados, como Paquistão e Tailândia, e a Índia fez o mesmo com os vizinhos Nepal, Sri Lanka e Bangladesh.

“A diplomacia é feita disso também, relações de confiança com países. Isso interfere nos cálculos da China, sem dúvida, entre atender um país que é hostil e um país que é amigo, não é difícil imaginar para quem vai ser dada a preferência e sobretudo porque a oferta é menor do que a demanda. Isso leva necessariamente a um processo de escolha”, ressalta Menezes.

Fonte r7
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