Rui Costa: quem é o ex-sindicalista que assumirá a Casa Civil no novo governo Lula

Rui Costa foi eleito governador com o maior percentual de votos na história da Bahia; veja fatos de sua trajetória

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Governador da Bahia desde 2015, Rui Costa passará a faixa ao seu sucessor em 1° de janeiro de 2023, data em que assumirá como ministro-chefe da Casa Civil do próximo governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

O economista chegou a ser mencionado para o Ministério da Economia de Lula, que teve a confirmação de Fernando Haddad para assumir a pasta. No entanto, seu nome para a Casa Civil tem sido aprovado de forma geral, pela boa avaliação à frente do governo da Bahia e, sobretudo, por sua habilidade em negociar com segmentos de perfis e ideologias diferentes.

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A Casa Civil é um órgão diretamente ligado ao Poder Executivo, responsável por articular todo o funcionamento interno do governo e coordenar os trabalhos de todos os ministérios. Uma das tarefas de seu chefe é negociar com os políticos para que os projetos enviados pelo governo ao Congresso tramitem de acordo com os interesses do Planalto. Por isso, o ministro-chefe da Casa Civil normalmente é um político de extrema confiança do Presidente da República que, não raro, torna-se um nome potencial para sua sucessão.

Quem é Rui Costa

Aliados e pessoas próximas descrevem Rui Costa como um político hábil e articulado, que tem o talento de conseguir conversar com adversários e conservadores. Por vezes, setores à esquerda do PT e de outros partidos chegam a considerar “excessiva sua abertura ao diálogo com conservadores”.

Por outro lado, sua capacidade de estabelecer parcerias com prefeitos baianos (lembrando que o PSD é quem detém a maior quantidade de prefeitos do estado) foi decisiva para os 72% de votos alcançados por Lula no quarto maior colégio eleitoral brasileiro, e também para a eleição de Jerônimo Rodrigues.

Candidato da coligação Pela Bahia, Pelo Brasil, Rodrigues venceu uma disputa acirrada pelo governo do estado nos dois turnos contra ACM Neto. Segundo aliados, isso foi fruto, em grande parte, da influência de Rui Costa, tanto pela avaliação positiva de seu governo quanto pela coordenação direta da campanha do novo governador.

Há quem teça críticas ao estilo de comunicação do novo ministro da Casa Civil em relação aos deputados baianos. Inclusive, o deputado estadual Robinho (PP), que rompeu com Costa em 2021, chegou a afirmar que ele não tinha relações com os deputados, pois tratava-os com truculência.

O fato é que, por ora, todos concordam que Rui Costa dará à Casa Civil um perfil mais técnico do que político. Nesse sentido, adjetivos como “detalhista, trabalhador e obstinado” são utilizados por pessoas próximas ao político para descrever o seu estilo.

Sua trajetória política iniciou como suplente de vereador, em 2000. Posteriormente, passou pela Secretaria de Relações Institucionais (SERIN) da Bahia e foi eleito o deputado federal mais votado do PT Bahia, em 2010. Em 2012, assumiu a Casa Civil da Bahia e, em 2014, foi eleito governador do estado, cargo que exerceu por dois mandatos consecutivos.

Origem e formação acadêmica

Nascido em Salvador, Bahia, em 18 de janeiro de 1963, Rui foi o segundo de quatro filhos do metalúrgico Clovis dos Santos e da dona de casa e confeiteira Maria Luiza Costa dos Santos. De origem humilde, passou a infância no bairro Liberdade, estudando sempre em escolas públicas e fazendo desde cedo pequenos trabalhos para ajudar os pais, que ganhavam pouco.

Tido pela família e amigos como um menino “educado e estudioso”, Rui se destacou cedo na escola. Cursou o ginásio no Colégio Estadual Luiz Tarquínio, na Boa Viagem e, logo após, fez o curso técnico de Instrumentação Industrial na Escola Técnica Federal da Bahia (atualmente IFBA).

Em 1983, época em que os movimentos sindicais estavam fortes e consolidados, Rui começou a estudar Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia (UFBA), curso que não chegou a concluir. Anos mais tarde, em 1993, passou no vestibular de Economia na mesma universidade, no qual se graduou.

No início de sua vida profissional, trabalhou como desenhista, projetista industrial e técnico de instrumentação. Foi no Polo Petroquímico de Camaçari, onde teve o primeiro contato com atividades sindicais. Na ocasião, chegou a dirigir o Sindicato dos Químicos e Petroleiros da Bahia, entre 1984 e 2000, e a Confederação Nacional dos Químicos, entre 1992 e 1998.

Rui Costa é casado com a enfermeira Aline Peixoto, com quem tem quatro filhos: Caio, Aline, Malu e Mariana.

Início da vida pública

Em 1982, Rui Costa filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT), e começou a atuar na construção de diretórios na Região Metropolitana de Salvador. Em 2000, candidatou-se pela primeira vez a um cargo eletivo em Salvador, no qual ficou como vereador suplente. Quatro anos mais tarde, foi eleito o vereador mais votado do PT.

Em seus trabalhos na Câmara Municipal, destacou-se em alguns assuntos relevantes, entre os quais estão:

  • a MP da empregada doméstica (atualmente lei federal assinada por Lula);
  • a indicação que resultou na Lei Municipal nº 6914/05, de estímulo à geração de empregos na cultura;
  • o Projeto de Lei nº 119/04, de combate à fraude nos combustíveis em Salvador;
  • a elaboração de emendas ao Projeto de Lei nº 410/05, que determina adaptações ao transporte público para torná-lo acessível a pessoas com deficiência.

Em 2007, Rui Costa interrompeu suas atividades como vereador para assumir a Secretaria de Relações Institucionais (SERIN), convidado pelo então governador Jaques Wagner. Três anos depois, conseguiu obter a maior votação do PT na Bahia para deputado federal. Em 2011, seu primeiro ano de mandato, foi membro titular na Comissão Mista de Orçamento e na Comissão de Finanças, e suplente na Comissão de Educação e na Comissão Especial da DRU, que buscava a desvinculação de receitas da União. Além disso, foi coordenador do Núcleo de Finanças do PT.

Em janeiro de 2012, licenciou-se do cargo de deputado federal para assumir a chefia da Casa Civil da Bahia, já no segundo governo de Jaques Wagner, de quem é amigo há mais de 40 anos. Os dois trabalharam juntos no antigo Sindicato dos Químicos e Petroleiros, e estiveram à frente de greves no Polo de Camaçari.

Em novembro de 2013, o PT anunciou seu nome para a disputa ao governo baiano, decisão aprovada por unanimidade pelo diretório estadual do partido. Em outubro do ano seguinte, Rui Costa é eleito governador no primeiro turno, com 3,5 milhões de votos. Quatro anos depois, consegue a reeleição também no primeiro turno, com 76% dos votos, e se torna o governador eleito com o maior percentual de votos da história do estado.

Atuação no governo da Bahia

Apesar do apoio de seu antecessor, o estilo de gestão de Rui Costa lhe permitiu não ficar à sombra de Jaques Wagner. Centralizador e minucioso, o seu ritmo de trabalho dinâmico rendeu o apelido de “Rui Correria”, em alusão à forma com que tenta cumprir metas e às constantes visitas às cidades do interior baiano, no intuito de entender os problemas locais.

Seus dois mandatos foram marcados por grandes obras de infraestrutura. Um dos exemplos é o Programa Salvador 360, que promoveu, entre outras iniciativas, a revitalização do Terminal da Barroquinha, Praça da Sé, Terreiro de Jesus e outras localidades do Centro Histórico de Salvador. Somam-se a essas obras a expansão do metrô de Salvador e a construção de viadutos, vias e hospitais na capital e no estado.

A privatização da rede de supermercados Cesta do Povo, fundada nos anos 70, também ocorreu em sua gestão. O capital privado também entrou em parcerias realizadas para administração de unidades de saúde baianas.

No entanto, o governo de Rui Costa enfrentou sérios desgastes em relação a questões como educação e segurança pública. Não é de hoje que a Bahia vem mal posicionada no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), sendo que, em 2021, o estado despencou da 22° para a 26° posição, ficando à frente apenas do Maranhão.

Quanto à política de segurança, dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em 2021, o estado com o maior número absoluto de mortes violentas foi a Bahia. Nesse sentido, críticos de Rui Costa o acusam de, supostamente, minimizar casos de violência policial.

Durante a pandemia, foi elogiado pela firmeza nas medidas de isolamento, postura que lhe rendeu a aprovação inicial de mais de 60% dos baianos. Porém, sua popularidade ficou um pouco abalada após a Polícia Federal deflagrar a Operação Cianose em abril deste ano, que investiga fraude e lavagem de dinheiro na aquisição de respiradores pelo Consórcio Nordeste no valor de quase R$ 49 milhões.

Segundo a PF, o processo de aquisição dos equipamentos teve diversas irregularidades. Entre elas, estão o pagamento antecipado do valor integral e a falta de contrato ou garantias contra eventual inadimplência por parte da contratada.

Ao todo, foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão em Salvador, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro e no Distrito Federal. Os mandados foram expedidos pelo Superior Tribunal de Justiça, e a Controladoria Geral da União apoiou a PF nas buscas realizadas. Apesar de constar entre os investigados, Rui Costa não foi alvo de nenhum mandado, diferentemente do seu ex-secretário da Casa Civil, Bruno Dauster.

Em nota, o Consórcio Nordeste informou ter sido vítima de fraude por parte de empresários, que receberam o pagamento e não entregaram os aparelhos. Nas palavras de Rui Costa à Folha em dezembro do ano passado: “nós fomos roubados em um momento de desespero para conseguir respiradores”.

O Consórcio Nordeste disse ainda que está aguardando, além da devolução do dinheiro aos cofres públicos (ainda falta parte), o julgamento e a punição dos responsáveis pela fraude.

Fonte infomoney
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