Lutar por #LulaLivre é fundamental para a democracia do país

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O dia 07 de abril de 2018 ficou registrado em nossa história por marcar a prisão de Lula. Pela segunda vez em sua biografia, o torneiro mecânico enfrentava o arbítrio do encarceramento. Segue até hoje privado de liberdade em Curitiba com o consentimento do Supremo Tribunal Federal, mesmo diante do escandaloso vazamento de mensagens da Lava Jato conduzido pelo The Intercept BR e sob olhares distantes de uma esquerda gourmet que, como muitos setores da direita, apostam no fim do PT como tábua salvação da nação.

A turma do “temos que superar o Lula”, “o PT tem que esquecer o Lula Livre”, “a culpa do Bolsonaro estar eleito é do PT!” e demais variações fartamente disponíveis em podcasts, blogues e canais progressistas da moda desconhecem ou ignoram uma pequena grande coisa chamada luta de classes. 

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Diferente do que querem estes setores descolados, no chão da fábrica, em baixo da lona preta e nas veredas de um país que volta ao mapa da fome, a toada é outra.

É desse ponto que parte meu argumento em defesa do Lula Livre como vetor da resistência progressista nessa conjuntura tão desafiadora. Essa visão não é produto de uma crença messiânica no homem Luís Inácio ou da ausência da autocrítica petista. Pelo contrário, sou daquelas que concorda que nossos erros facilitaram imensamente o trabalho das elites em engendrar o Golpe de 16, sabotar as eleições de 18 e levar a cabo o projeto econômico de seu interesse em 19.

Contudo, a centralidade da defesa da liberdade do ex-presidente é crucial para determinar que rumos tomaremos nos próximos períodos. Entender isto é elementar. Como o barbudo alemão falava, não escolhemos as condições em que lutamos contra o Capital, temos a disposição os instrumentos que a muito suor foram forjados pela classe trabalhadora, que não são, nem serão, perfeitos. Fenômeno que o filósofo francês Daniel Bensaid, no livro Marx, Manual de Instruções, explica como sendo algo

“longe dos contos edificantes e das lendas moralizantes, a história terá, uma vez mais, passado pelo lado errado. […] Por isso, a história deve ser pensada politicamente, e a política, historicamente”.

Queiram ou não queiram os juízes, o Lula que tantos amam odiar continua sendo a liderança popular de maior envergadura de nosso país. É santo? Não. Muito menos demônio, como quer nos fazer pensar a disputa ideológica dicotômica-cristã que conseguiu cativar inclusive as mentes mais progressistas.

Longe de agradar a todos, a campanha pelo Lula Livre continua sendo a plataforma que unifica a ampla maioria dos setores combativos da esquerda nacional. Os Movimentos sociais, Centrais sindicais e os Partidos de esquerda de maior peso apostam nessa bandeira não por serem encantados pelas covinhas lindas do ex-presidente, mas por compreenderem que é sob essa liderança que conseguiremos defender a classe trabalhadora brasileira em nosso tempo.

Parece absolutamente ridículo falar isto em se tratando de um ex-presidente que, ainda do cárcere, continua a reivindicar que “os bancos nunca lucraram tanto quanto em meu governo”. Mas só parece mesmo.

O sentimento do antipetismo, alimentado pelas mesmas mãos caridosas que afagaram os egos de Moro e aplaudiram o lavajatismo, tem como impulsionador a hegemonia de um Capitalismo financeiro que não tem fronteiras nem paralelo histórico.

O PT, os governos petistas e Lula são resultados de um processo político e histórico que se deu em meio a uma disputa que nos constitui como humanidade, qual seja, a luta dos de baixo contra os de cima. A reemergência das extremas-direitas e da necessidade de ressuscitar o “inimigo vermelho” em meio ao absolutismo Capitalista mostra que o buraco é bem mais embaixo.

Lula é o elefante que incomoda muita gente por vários motivos. Permanece assombrando os sonhos das elites por ser o elo aglutinador da resistência das classes trabalhadoras brasileiras ao mesmo tempo em que não é o líder revolucionário que parte da esquerda idealiza. Aborrece por ser grande, desajeitado. Não é o bichinho bonitinho, dócil que vem da PetShop tosado de acordo com o desejo de seus donos. 

Sem esse elemento, sem esse sujeito histórico – que gostaria eu, uma socialista inveterada, que partilhasse de minhas compreensões sobre o marxismo, feminismo, dos erros do PT e outras coisinhas a mais – nossa resistência como classe trabalhadora ficaria abaixo de zero. Lideranças como o filho de Dona Lindu não podem ser fabricadas da noite para o dia. São resultantes históricas. 

Lula continua e continuará sendo a maior liderança popular que o Brasil conseguiu gestar até o momento. A luta de classes permanecerá sendo marcada de contradições e imperfeições, e, como diz a sabedoria dos memes – temos que lidar com elas. 

A campanha do Lula Livre é fundamental na disputa pela democracia no Brasil. Ignorar isso ou colocar essa plataforma como mero detalhe é de uma miopia preocupante.

Pergunto-me sempre qual é a alternativa que essa esquerda gourmet apresenta. Quem é a liderança popular que conseguirá continuar a fazer frente ao que Bolsonaro constitui?

Ou já esqueceram essas senhoras e senhores que era Luís Inácio o líder nas pesquisas de intenção eleitoral, conferindo ao pernambucano um quase certo terceiro mandato?

O PT e os governos Lula-Dilma cometeram equívocos imperdoáveis em nome do que estes mesmos setores progressistas reivindicam mais e mais: republicanismo. Nem os teóricos liberais mais consagrados achavam que esta fórmula funcionaria. Pois ela não funciona. O que move a imprensa, poderes instituídos e até aquele Conselho tutelar de seu bairro, é a política. E quem movimenta a política é a luta de classes. Permanente e irresistível. 

Elefantes nunca foram os melhores métodos de transporte ou animais de batalha – persas e indianos que o digam –, mas continuam sendo fabulosos pela potência que carregam. Nosso chão não é limpinho, é abarrotado de sangue, de merda, de fome, de corpos. É impossível mudar essa barbárie sem sujar as mãos. 

O que não significa, obviamente, fechar os olhos para a corrupção como fenômeno do Capitalismo, para a catástrofe ambiental como efluente desse mesmo modo de produção e para o racismo e o patriarcado estruturais como elementos de corte de apropriação da força de trabalho. A prisão de Lula representa a anuência com todos estes elementos, e consolida a vitória da necropolítica que, como o jurista Sílvio Almeida (2018) explica, se realiza como um “espaço onde a norma jurídica não alcança, onde o direito estatal é incapaz de domesticar o direito de matar”. 

A política adotada por Bolsonaro e seu governo é orquestrada pela batuta da morte. Da total negligência com os que passam fome, da radicalização de uma política de drogas racista, da negação do feminicídio como característica nacional. O anteparo a esse projeto, passa necessariamente pela libertação do ex-presidente. 

Não é através de um governo, da democracia representativa burguesa que a revolução cairá mansa sobre nossos colos. Todavia, sem esses instrumentos, tampouco, acumularemos forças para derrotar nossos inimigos.Recorrendo uma vez mais ao pensamento de Bensaid (2013), é necessário reafirmar que: 

“Ao contrário do milagre religioso, surgido do nada, ou da pura vontade divina, as revoluções têm sua razão. Mas aparecem onde e quando menos se espera. Necessariamente intempestivas, jamais pontuais, administram o efeito surpresa, com o risco de apanhar desprevenidos seus próprios autores e dar-lhes um papel inadequado”.

A liberdade de Lula e a luta para sua obtenção mobilizou milhares de atos em todo o país, organizou as parcas forças populares que dispomos e continua sendo esse foco de unidade, tão difícil entre nós e extremamente fácil para nossos inimigos. Como diz o conjunto Calle 13, na canção Lationoamerica, somos um povo sem pernas, mas que caminha. E nessa caminhada dura, difícil e nada prazerosa, precisamos usar o que for necessário para sobreviver, sem ilusões nem desesperanças que um dia a revolução virá.

Fonte cartacapital
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