Beleza americana

Em “Blonde”, a escritora Joyce Carol Oates relata de forma romanceada como a atriz Marilyn Monroe deixou de ser uma típica garota dos EUA e se transformou em um mito do cinema

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PRÊMIOS “Blonde”, de Joyce Carol Oates: vencedor do National Book Award e finalista do Pulitzer (Crédito:Divulgação)

A escritora Joyce Carol Oates já avisa logo na introdução: seu livro não é uma biografia. “Blonde” é um romance inspirado na vida de Marilyn Monroe, com liberdades poéticas e muita intuição feminina. O que interessa à autora não são os detalhes da carreira da atriz, mas o processo de transformação da típica garota americana, igual a tantas outras de sua geração, no mito feminino mais popular da história do cinema. A ascensão meteórica e a queda trágica da bela mulher que, com sua morte precoce, continua eternamente jovem.

A ideia para o livro veio quando Joyce viu uma foto de Norma Jeane Baker — nome real de Marilyn — aos 15 anos, com uma coroa de flores na cabeça, após vencer um concurso de beleza na Califórnia. “Senti uma sensação imediata de reconhecimento; essa jovem cheia de esperança, tão americana, evocava uma imagem muito poderosa das garotas da minha infância, algumas delas com lares caóticos”, lembra a autora, na apresentação de “Blonde”.

A infância de Marilyn foi marcada por sua família disfuncional. Não conheceu o pai, e a mãe, Gladys, foi internada em uma clínica psiquiátrica. Marilyn vagou por orfanatos até ser adotada. Sua vontade de pagar as próprias contas a levou a posar nua para alavancar a carreira artística que tanto sonhava.

A iniciação em Hollywood foi bem mais dura: aos 21 anos foi convidada para um teste de câmera. O senhor “Z”, como o personagem é chamado no livro em alusão ao produtor Darryl F. Zanuck, a levou para o apartamento nos fundos do escritório e a estuprou sobre um tapete branco. A jovem garota saiu de lá com o papel e um pseudônimo sonoro: Marilyn Monroe.

A descrição do episódio, onde a voz interior da atriz se confunde à descrição dos fatos, é parte da tal liberdade poética que Joyce Carol Oates imprime à obra. A mistura de fatos reais e suposições não comprometem a força do livro, pelo contrário, mostram ao leitor uma idealização provável dos sentimentos ambíguos que marcaram a vida de Marilyn. Quando o livro saiu nos EUA, em 2000, foi criticado por exagerar nos personagens masculinos.

Hoje, diante dos escândalos revelados pelo movimento #MeToo — assim como pela conduta de produtores contemporâneos, entre eles, Harvey Weinstein –, percebe-se que o sistema protegia os chefões dos estúdios e permitia o comportamento predatório de muitos deles.

Sua infância foi marcada pela família disfuncional: não conheceu o pai e vagou por orfanatos após a mãe ser internada em uma clínica psquiátrica

Carreira

Apesar de ser vista por muitos como um simples símbolo sexual, Marilyn levava a carreira a sério. Estudava o método Stanislavski, sonhava em interpretar textos de Chekhov. Sua beleza, porém, limitava sua atuação a papeis leves, bobos, onde, mesmo assim, ela brilhava com talento e timing perfeito para a comédia. Filmes como “Os Homens Preferem as Loiras”, “Como Agarrar um Milionário”, “O Pecado Mora ao Lado” apresentavam Marilyn como o estereótipo da loira fútil, interesseira, intelectualmente limitada. Ela era muito mais que isso. No clássico de Billy Wilder “Quanto Mais Quente Melhor”, uma das melhores comédias de todos os tempos, sua performance brilhante a coloca em pé de igualdade com Jack Lemmon e Tony Curtis. A frustração dela pode ter acelerado sua morte precoce, aos 36 anos.

“Blonde – Volume 1” foi adaptado pela Netflix e virou um filme de Andrew Dominik com estreia prevista ainda para esse ano. Ana de Armas faz o papel de Marilyn, Adrien Brody é o dramaturgo Arthur Miller, seu primeiro marido, e Bobby Cannavale interpreta o segundo, o ex-jogador de baseball Joe DiMaggio.

A Marilyn do livro é uma mulher real e empática. A emoção com que a escritora descreve sua personagem é a mesma que a mantém viva entre os fãs de cinema e de cultura pop, quase 60 anos após a sua morte.

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