Com um acidente aéreo a cada 2 dias em 2023, Brasil registra o maior número de casos em cinco anos

No domingo, foram sete mortos na queda de um monomotor em Itapeva (MG). Há uma semana, um pequeno avião caiu em Rio Grande da Serra, na Região Metropolitana de São Paulo, e causou duas mortes. Os desastres com pequenas aeronaves têm se tornado mais frequentes no Brasil, onde o número de acidentes aéreos no ano passado foi o maior desde 2018, segundo o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).

Foram 155 casos em 2023, um número 13% mais alto do que o de 2022 — o equivalente, em média, a um acidente aéreo a cada período de pouco mais de dois dias. A taxa de fatalidades também subiu, passando de 49 para 72 mortes. De acordo com o Cenipa, os três principais fatores que contribuíram para os desastres na última década foram a perda de controle em voo, a colisão com obstáculo durante a decolagem ou pouso e falhas no motor.

A região Centro-Oeste foi a que teve maior números de acidentes em 2023, com 44 casos (28%). Em seguida, estão o Sudeste (24%), o Sul (21%), o Norte (17%) e o Nordeste (10%). Na divisão por estados, os desastres foram mais numerosos no Mato Grosso, em São Paulo, no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais e no Mato Grosso do Sul.

Gestor de Crises e Investigador de Acidentes Aeronáuticos, Maurício Pontes ressalva que qualquer tendência comum ou nexo causal nos casos recentes — que chamaram atenção pelo curto espaço de tempo entre eles — só pode ser feito a partir do término de cada investigação pelo Cenipa. O investigador aponta que um acidente aeronáutico não se dá por um só motivo, mas por uma série de variáveis, que podem ir de problemas com o mais simples componente do aparelho a fatores psicológicos.

— Não é possível dizer que há uma epidemia de acidentes aéreos. Sob um olhar ainda dependente de cada conclusão investigativa, os mais recentes não nos permitem apontar um nexo de causalidade entre eles. Cada um desses 155 casos conta uma história diferente. São eventos isolados, que não indicam que este seja um momento ruim para viajar em uma aeronave — argumenta Pontes.

‘Sinal amarelo’

O índice de acidentes, que atingiu o pico dos últimos dez anos em 2013, com 199 desastres, caiu na pandemia de Covid-19. Mas voltou a crescer no ano passado.

A pandemia também provocou outros problemas para a aviação, como a escassez de comandantes de voo — que preocupa em países como Estados Unidos e Qatar e deve afetar o Brasil nos próximos anos — e a crise global de suprimentos para a indústria de aviação. O desabastecimento de peças e componentes é um desafio para o crescimento do setor.

— Este é um sinal amarelo e deve ser encarado como um problema real, que é influenciado por cenários econômicos e geopolíticos. A indústria da aviação é muito dinâmica e certamente medidas estão sendo tomadas para evitar um apagão. O que está em discussão no momento são as ações de preparação e recuperação dos níveis anteriores à Covid — detalha Pontes.

No acidente de Itapeva, o monomotor se partiu em três fragmentos maiores. Mas partes menores também foram encontradas em um raio de até 1 km do local da queda. O Cenipa informou que o avião estava com a documentação em dia e não possuía registros de incidentes prévios.

Neblina e chuvas

A aeronave havia saído de Campinas, no interior de São Paulo, com destino a Belo Horizonte, durante a manhã. Além do piloto e do copiloto, morreram dois empresários do mercado financeiro, suas mulheres e o filho de um deles, de 2 anos. No momento do acidente, por volta de 10h40m de domingo, no bairro Monjolinho, chovia forte, segundo moradores.

Para o especialista Salmen Chaquip Bukzem, professor e coordenador do curso de Ciências Aeronáuticas da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), uma das hipóteses das causas do desastre em Itapeva é a despressurização da aeronave.

— Apenas a Cenipa pode dizer a causa oficial do acidente — ressalva Chaquip. — Todo o resto é apenas uma hipótese. Porém, pela natureza do acidente, esse avião pode ter sofrido uma despressurização violenta. Aeronaves que voam acima de 10 mil pés devem ser pressurizadas e precisam de um ótimo sistema de vedação para suportá-la. Se houver qualquer problema estrutural, essa despressurização pode acontecer de forma rápida e violenta.

Como em Itapeva, a chuva também estava intensa na queda do avião em Rio Grande da Serra, há uma semana, que matou Benedito Aparecido da Silva e Ricardo Falarini, de 59 e 60 anos. A aeronave havia decolado de São Paulo para Presidente Venceslau, no interior do estado, onde os dois iriam pescar.

O mau tempo pode estar relacionado ainda ao acidente de um helicóptero em que os quatro ocupantes morreram no fim do ano passado, no mesmo estado. O aparelho, que teria se chocado com a vegetação, levou 11 dias para ser localizado em Paraibuna. Imagens e relatos de uma passageira e de um piloto informaram que havia muita neblina na área em que o helicóptero voava.

Piloto há quase 40 anos, dos quais 32 na Força Aérea Brasileira (onde comandou também o avião da Presidência da República), Enio Beal Júnior reconhece que qualquer crescimento na quantidade de acidentes deve servir como um alerta para o setor. Mas lembra que os números absolutos precisam ser correlacionados com a quantidade total de horas de voo. Nos últimos anos, as estatísticas podem ter sido impactadas pela diminuição das viagens durante a pandemia da Covid-19, acrescenta o piloto com mais de 7 mil horas de voo.

— Devemos estar atentos. Isso vale para todos: pilotos, mecânicos, comissários, equipe de solo. Muito mais do que buscar uma linha ou fator que correlacione os acidentes, é preciso que esses eventos sirvam para elevar o nível alerta para evitar futuras ocorrências

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